Ototoxicidade: medicamentos e substâncias que afetam a audição e o equilíbrio
- 5 de abr.
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Entenda como determinadas drogas podem lesar a orelha interna (ototoxicidade) e provocar perda auditiva, zumbido, tontura e distúrbios do equilíbrio
A ototoxicidade corresponde ao dano provocado nas estruturas da orelha interna após a exposição a determinadas substâncias, como alguns medicamentos, agentes químicos e, em alguns casos, radiação ionizante. Trata-se de uma condição clinicamente relevante porque pode comprometer funções fundamentais para a qualidade de vida: a audição e o equilíbrio.
Dependendo do tipo de agressão e da suscetibilidade do paciente, a toxicidade pode se manifestar de forma leve e transitória, mas também pode resultar em perda auditiva permanente, zumbido crônico, vertigem e instabilidade postural persistente.
Por isso, conhecer os principais agentes ototóxicos e saber identificar seus sinais de alerta é essencial tanto para profissionais de saúde quanto para pacientes em uso de medicações potencialmente lesivas à orelha interno.
O que é a ototoxicidade?
A orelha interna contém duas estruturas de importância central para o funcionamento sensorial humano:
a cóclea, responsável pela audição;
o sistema vestibular (labirinto), responsável pela manutenção do equilíbrio e da estabilidade visual durante os movimentos da cabeça.
Quando essas estruturas sofrem agressão tóxica, o paciente pode desenvolver manifestações relacionadas à função auditiva, à função vestibular ou a ambas simultaneamente.
As queixas mais comuns incluem:
perda auditiva
zumbido
sensação de ouvido abafado
tontura
vertigem
instabilidade ao caminhar
desequilíbrio
oscilopsia (sensação de que o ambiente se move ou “balança” ao andar)
A apresentação clínica pode variar consideravelmente. Em alguns pacientes, a lesão é discreta e reversível. Em outros, o dano é progressivo e irreversível, especialmente quando o diagnóstico é tardio ou quando a exposição tóxica é intensa e prolongada.
Como a ototoxicidade afeta o ouvido interno?
A toxicidade pode atingir diferentes compartimentos da orelha interna, e isso influencia diretamente os sintomas apresentados.
Comprometimento coclear: quando a audição é afetada

Quando o principal alvo é a cóclea, o quadro costuma ser dominado por sintomas auditivos. Os pacientes podem relatar:
diminuição da audição
dificuldade para compreender fala, especialmente em ambientes ruidosos
zumbido
sensação de pressão ou abafamento auricular
Comprometimento vestibular: quando o labirinto é afetado

Quando a toxicidade predomina no sistema vestibular, os sintomas podem ser ainda mais incapacitantes do ponto de vista funcional. Entre eles, destacam-se:
sensação de desequilíbrio
instabilidade para caminhar
tontura
vertigem
dificuldade para caminhar no escuro ou em terrenos irregulares
piora do equilíbrio com movimentos da cabeça
Em determinadas situações, a mesma substância pode causar toxicidade coclear e vestibular ao mesmo tempo, produzindo um quadro misto.
A lesão é sempre permanente?
Não necessariamente. A ototoxicidade pode ser:
parcial ou total
temporária ou permanente
unilateral ou bilateral
A evolução depende de múltiplos fatores, incluindo a substância envolvida, a intensidade da exposição, a presença de fatores predisponentes e o momento em que a alteração é reconhecida.
Em alguns cenários, especialmente quando há identificação precoce, ajuste terapêutico e monitorização adequada, é possível limitar o dano e até observar melhora clínica. No entanto, há situações em que a lesão é irreversível, sobretudo quando há destruição de células sensoriais da cóclea ou do aparelho vestibular.
Quais fatores aumentam o risco de ototoxicidade?
A resposta à exposição ototóxica não é igual em todos os indivíduos. Algumas pessoas toleram determinada medicação sem alterações perceptíveis, enquanto outras desenvolvem sintomas com maior facilidade.
Entre os principais fatores que influenciam o risco estão:
composição química da substância
dose administrada
tempo de exposição
via de administração
susceptibilidade genética individual
Além disso, existem condições clínicas que podem potencializar a toxicidade ou aumentar a vulnerabilidade da orelha interna.
Quem tem maior risco de desenvolver lesão auditiva ou vestibular?
Alguns grupos exigem atenção especial, pois apresentam risco mais elevado de complicações. Entre os fatores que podem agravar a ototoxicidade, destacam-se:
insuficiência renal
uso concomitante de mais de um medicamento ototóxico
idade extrema, especialmente crianças e idosos
doenças prévias da orelha interna
estado geral debilitado
alterações nutricionais
fragilidade clínica associada
Esse cuidado é particularmente importante em pacientes hospitalizados, indivíduos em tratamento oncológico, pessoas submetidas a antibioticoterapia venosa prolongada e pacientes críticos.
Quais medicamentos e substâncias podem causar ototoxicidade?
Diversas substâncias já foram relacionadas a dano coclear e/ou vestibular. Algumas têm maior tendência a afetar a audição, outras o labirinto, e várias podem comprometer ambos.
A seguir, estão alguns dos principais grupos envolvidos.
Substância | Efeito ototóxico | |
Cocleotóxico (audição) | Vestibulotóxico (labirinto) | |
Antibióticos | ||
Eritromicina | ✓ | - |
Cloranfenicol | ✓ | - |
Azitromicina | ✓ | ✓ |
Polimixina B | ✓ | ✓ |
Vancomicina | ✓ | ✓ |
Minociclina | ✓ | ✓ |
Ampicilina | ✓ | - |
Capreomicina | ✓ | ✓ |
Tobramicina | ✓ | ✓ |
Estreptomicina | ✓ | ✓ |
Gentamicina | ✓ | ✓ |
Neomicina | ✓ | ✓ |
Canamicina | ✓ | ✓ |
Paramomicina | ✓ | ✓ |
Amicacina | ✓ | ✓ |
Diuréticos | ||
Ácido etacrínico | ✓ | - |
Furosemida | ✓ | ✓ |
Anti-inflamatórios | ||
Ácido acetilsalicílico | ✓ | ✓ |
Ibuprofeno | ✓ | - |
Indometacina | ✓ | ✓ |
Antineoplásicos | ||
Cisplatina | ✓ | ✓ |
Carboplatina | ✓ | - |
Ifosfamida | ✓ | - |
Vincristina | ✓ | ✓ |
Outros | ||
Deferoxamina (quelante de ferro | ✓ | ? |
Clorexidina | ✓ | - |
Quinino (antimicrobiano) | ✓ | ✓ |
Quinidina (antiarrítmico) | ✓ | ✓ |
Hidroxicloroquina | ✓ | ✓ |
Cloroquina (antimicrobiano) | ✓ | - |
✓ = Efeito presente; – = Sem efeito tóxico; ? = Desconhecido.
Adaptado de: Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF). Tratado de otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço. 4ª ed. Rio de Janeiro: Thieme Revinter; 2025. 2 vol.
Como o diagnóstico é feito?
O diagnóstico da ototoxicidade é baseado na integração entre a história do paciente, os sintomas apresentados, a análise das medicações em uso e a avaliação otorrinolaringológica especializada.
A investigação costuma incluir:
anamnese detalhada
revisão das medicações e substâncias utilizadas
exame otorrinolaringológico
exames complementares
Em pacientes de maior risco, o acompanhamento seriado pode ser decisivo para detectar alterações ainda em fase inicial, antes mesmo de grande repercussão funcional. Por isso, mesmo sem sintomas, é importante que o paciente com maior risco seja acompanhado por um otorrinolaringologista.
O que fazer diante da suspeita de ototoxicidade?
A conduta depende do contexto clínico e da importância terapêutica da substância envolvida. Em muitos casos, a medicação suspeita está sendo utilizada para tratar condições potencialmente graves, o que exige uma decisão médica equilibrada entre benefício e risco.
Por isso, o mais importante é procurar avaliação otorrinolaringológica o quanto antes, discutir a necessidade de ajuste de dose, substituição da droga ou monitorização mais próxima.
A abordagem ideal costuma ser multidisciplinar, especialmente quando o paciente está em acompanhamento com infectologista, oncologista, reumatologista, intensivista e/ou outras especialidades médicas.
É possível prevenir a ototoxicidade?
Nem todos os casos são evitáveis, mas há medidas que ajudam a reduzir risco e a minimizar danos.
Entre as principais estratégias preventivas, destacam-se:
uso criterioso de medicações potencialmente ototóxicas
evitar automedicação
ajuste de dose em pacientes com disfunção renal
atenção ao uso concomitante de múltiplos agentes tóxicos
monitorização otorrinolaringológica em pacientes de maior risco
acompanhamento mais próximo em crianças, idosos e pacientes fragilizados
A prevenção, quando possível, é sempre preferível ao tratamento das sequelas. Na medicina, muitas vezes a chave está em tratar corretamente sem perder de vista os possíveis efeitos colaterais do tratamento. E, quando se trata de audição e equilíbrio, o diagnóstico precoce pode fazer toda a diferença.
Por isso, em caso de necessidade, procure um especialista!

Dra. Nathalia de Paula Doyle Maia é especialista em Otoneurologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
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